A Grande Travessia de Itatiaia - RJ

A GRANDE TRAVESSIA DE ITATIAIA


No vale em que me encontro agora vejo sobre minha cabeça um paredão de quase 600 metros a uma altitude de 1800 metros. Meus pés estão destruídos, também pudera, faz pelo menos uns seis meses que não caminho devido ao trabalho e outros afazeres que tomaram meu tempo este ano.

Aqui estou no vale do Rio Aiuruoca, caminhei por quase 10 horas para desfrutar esse local belíssimo com suas águas de cores impressionantes que poucas vezes pude ver algo igual. Agora, faço meu jantar e monto minha barraca para mais tarde tirar minhas botas e coloco meus pés na gélida água deste rio.

Apesar de sozinho, me sinto imensamente feliz de estar aqui, já não aguentava mais a pressão da vida cotidiana que aos pouco vai acabando com a nossa energia. Não estou aqui para recarregar as minhas baterias, estou aqui para me livrar delas: sem celular, computador e outros, comigo levo apenas uma máquina fotográfica digital. Assim, consigo sentir como a vida simples é maravilhosa, ouvindo apenas o barulho do rio, dos pássaros e dos pequenos animais próximos de mim.

Ao meu lado existe uma cabana de madeira, uma verdadeira tapera abandonada (sabe se lá quando) e que hoje pertence ao Parque Nacional de Itatiaia mas que deveria ter sido habitado por algum caboclo que levava uma vida extremamente simples e sem muito contaminado com a nossa civilização urbana.

Logo anoitece, mesmo estando no horário de verão, a noite cai rápido por estas bandas devido as montanhas e por isso antes das 19h já estou me recolhendo até porque hoje foi um dia intenso, e amanhã tenho 600 metros de desnível para vencer até chegar na portaria superior do Itatiaia localizada no meio desta fantástica cadeia montanhosa.

Para chegar aqui, sai de casa na tarde de ontem e ainda lembro a cara de surpresos de meus vizinhos que ao me verem com minha enorme mochila nas costas e trajando roupas largas pronto para ir sozinho para o meio do mato, pois sempre sou visto trajado formalmente. Realmente é coisa de louco, até minha família está achando que sou um, porém dou muita risada e já estou acostumado com o que as pessoas classificam a mim e as outras pessoas que fazem o mesmo. Infelizmente, muitas pessoas vivem infelizes, preso ao materialismo, ao status, sem vontade e coragem e presa aos pré-conceitos sociais que fazem as pessoas viverem em um mundinho e não no mundo.

Desembarco na rodoviária de Campinas e logo sigo viagem para S. José dos Campos onde chego em 2h30min porem aqui pego outro ônibus agora com destino à Resende, no estado do Rio de Janeiro. Durmo durante toda a viagem e quase sem perceber chego a Resende. São duas da manhã e ainda tenho que pegar mais um ônibus para o vilarejo de Visconde de Mauá que só sairá às cinco e meia. Nesse meio tempo aproveito para tentar cochilar um pouco na rodoviária porém os seguranças não deixaram!

As quinze para as seis encosta o coletivo para Mauá que tem fim de linha Maromba, outro vilarejo 10 km a frente, justamente meu destino. Seguimos caminho sentido oeste e por 50 km serpenteamos este braço da Serra da Mantiqueira. São curvas e mais curvas porém a beleza do caminho e o nascer do sol de trás das montanhas deu um brilho todo especial a viagem.

Passamos por Visconde de Mauá. Que tem ao lado da única rua de terra um riacho de águas cristalinas que dá ao lugar um charme todo especial. Passamos por Maringá e logo em seguida a estrada acaba no bucólico vilarejo de Maromba. Lugarejo simplesmente adorável. Vou até uma padaria para tomar café e me informar sobre a travessia conhecida com Serra Negra. A padaria é bem estilizada, têm fotos do Che Guevara por todos os lados, símbolos de sindicatos e de órgãos de defesa humanitária. Pergunto ao dono sobre a trilha e ele me diz que por ser um parque nacional ninguém pode entrar sem autorização, então desisto de continuar a conversar e vou me informar em outro lugar. Encontro um “bicho grilo” que me deu logo todas as informações que precisava.

A minha intenção é sair de Maromba, cruzar por dentro do Parque Nacional de Itatiaia pela Serra Negra, descer até o vale do Rio Aiuruoca e depois subir até a parte alta do parque, onde fica o Pico das Agulhas Negras e de lá descer até a sede, já na cidade de Itatiaia. Este trajeto terá que ser feito em três dias, meu tempo de folga do trabalho.

Atravesso o rio Maromba e entro de cara logo no Estado de Minas Gerais. Aliás, lindo rio, se não fosse tão cedo e a água não estivesse tão fria eu arriscaria entrar. Tomo logo a estradinha depois da ponte e em 5 minutos pulo a porteira de um sítio. Procuro pela trilha depois de uma ponte de madeira, mas não encontro nada, errei, acabei pegando o lado errado da estrada. Volto, pego a estradinha a direita, mas não consigo perceber trilha alguma. Estou seguindo um mapa muito antigo desta trilha e as coisas mudaram muito por aqui. Cercas foram colocadas, porteiras mudaram de lugar, com isso fiquei por quase uma hora procurando o inicio da trilha e finalmente a encontrei subindo a encosta quase no rumo contrário ao que eu estava. É uma subida enorme que passa por dentro de algumas samambaias e curvando-se para a direita, passa por uma bica onde aproveito para encher o meu cantil e logo desemboca no alto da serra dando visão para toda a Mantiqueira onde consegue se contar as dezenas de cachoeiras despencando do alto das montanhas, uma visão realmente de encher os olhos.


Continuo o meu caminho a passos largos, parando de vez enquanto para tomar fôlego e arrefecer a temperatura interna com um gole de água. Esta trilha é bem larga e muito usada pelo povo da região. Na verdade pode se dizer que é uma trilha histórica, usado pelos agricultores para abastecer com alimentos os vilarejos que acabei de passar. Eles usam as mulas para fazer este transporte. É de se admirar que em pleno século 21 este tipo de comércio ainda sobreviva mesmo com a evolução do transporte.


O caminho é penoso, só subida. Conforme vamos subindo a serra vai ficando espetacular. Não é possível avistar daqui as Agulhas Negras, só será possivel no segundo dia de caminhada. A trilha em alguns momentos vai se perdendo nos vastos campos de altitude e é preciso tomar cuidado com a direção a tomar, ou então se corre o risco de perder-se nos vales abaixo. Por várias vezes tive que me sentar para tomar fôlego e estudar o caminho a seguir. Depois de umas cinco horas de caminhada montanha acima, finalmente chego ao topo desta serra, quase 2400 metros de altitude, não muito alto se compararmos com as montanhas que me cercam mas não dá para negar que o desnível vencido até aqui não é para qualquer um. Em mais uma hora chego a borda do grande vale do Aiuruoca onde será uma descida vertiginosa até o rio, local denominado de subida da misericórdia, para quem faz a trilha no sentido contrário é mesmo mas para mim é só descida porém a minha misericórdia já ficou para trás.

A descida é terrível, acaba com os joelhos e os tornozelos, a mochila parece estar pesando uma tonelada. Desço de pressa,mas sempre parando para fotografar a paisagem, as plantas e flores e é claro, as fantásticas montanhas ao meu redor. Passo por florestas e dezenas de riachos até que a trilha desemboca em um pequeno amontoado de casas. Não sei ao certo, mas parece que este é o lugar que eles chamam de Fragária.


Mesmo muito cansado e com muita fome decido seguir em frente pois ainda tenho 2h de sol. Paro para perguntar em um lugar que parece uma pousada abandonada e fui informado do seguinte caminho: Pego uma pequena estrada de terra e em 5 minutos quebro a esquerda em um caminho que morre em uma casa. Pergunto pela trilha que pode me levar até o Hotel Alsene, que fica na estrada que da acesso a portaria do parque, uma mulher (mãe de um guarda do parque) me dá a dica: Pulo o riozinho logo abaixo da casa e encontro a trilha que procuro, e quase meia hora depois chego em um riacho. Paro para descansar um pouco e beliscar alguma coisa, aproveito para tirar a bota e descansar um pouco os pés. Tento entrar na água mas ela está extremamente fria e congela até os ossos.

Tomo de novo a trilha montanha acima. Na serra começam a surgir várias cachoeiras de dezenas de metros, fico fascinado com tanta beleza. Fico também preocupado com o rumo que esta trilha começa a tomar. Estou entrando em uma zona de completo abandono, pouca gente passa por aqui. A trilha atravessa florestas e mais florestas, cruza por vários rios e vales. Ando, ando muito e não chego a lugar algum. Será que estou perdido? Penso eu. Em uma curva da trilha tropeço no maior cupinzeiro que já vi em minha vida. Tinha uns 3 metros de altura por uns 2 metros de largura , de tão grande chegou a tombar na trilha. Passo por mais cachoeiras gigantes e também por alguns ranchos abandonados e é exatamente em um destes abrigos rústicos que acabo perdendo a trilha. Procurei, procurei e nada encontrei. Agora sim eu estava perdido! Desci quase todo o vale a direita, mas nada .Subi em uma árvore e consegui localizar o hotel encravado em um selado a uns 700 metros de desnível acima de mim, acertei o meu rumo, voltei até o rancho e localizei a trilha novamente e quando menos espero, chego ao Rio Aiuruoca. Fiquei decepcionado por não ter conseguido atingir à estrada do parque neste dia mas aproveitei para entrar no rio encerrando esse primeiro dia de caminhada e acabei acampando aqui mesmo acampar ali mesmo, ao lado deste espetáculo da natureza.

Acordo no outro dia às seis da manhã. O céu está perfeito, nenhuma nuvem. Dormi muito bem, porém meus pés ainda doem um pouco, mas a vontade de seguir viagem compensa qualquer sofrimento. Enquanto o fogareiro ferve a água do café, aproveito para desmontar a barraca e arrumar minha mochila, neste meio tempo vou até o rio e verifico a continuação da trilha do outro lado, desço um pouco pelo rio para visitar as cachoeiras e os poços, volto e tomo café, jogo novamente a mochila nas costa e tomo meu rumo atravessando o rio com a água quase pela cintura. A água é tão fria que mal consigo chegar do outro lado. O rio Aiuruoca nasce a 2500 metros de altitude,por isso as suas águas são tão geladas.


A trilha continua subindo sem piedade, o paredão sobre minha cabeça vai ficando cada vez mais perto e atrás de mim vão surgindo vales e gargantas profundas e daqui consigo ver outras serras da qual já tive o prazer de caminhar. Duas horas se passam e finalmente alcanço a estradinha de terra que me levará até a portaria do Parque Nacional de Itatiaia. Ao lado do lugar onde acabei saindo está o famoso Hotel Alsene. Na verdade uma rústica construção de montanha que anda meio jogado as traças que estava neste dia completamente vazio. Ouvi dizer que o prédio foi vendido para a Associação de Atletismo para treinamento dos nossos atletas olímpicos.

A estradinha onde estou na verdade é uma BR a mais alta do Brasil. Estamos a 2400 metros de altitude. Conta a história que ela teria sido construída a mando do então Presidente Getúlio Vargas. Se alguma coisa desse errado na revolução constitucionalista de 1932, Getúlio poderia vir para cá com sua comitiva.


Sigo caminhando e paro apenas para apreciar a visão espetacular da Serra Fina, uma gigantesca cadeia de montanhas que abriga o topo da serra, a Pedra da Mina com seus 2798 metros de altitude. Sinto-me orgulhoso de também já ter explorado todas estas montanhas. Consigo localizar também o Pico dos 3 Estados, o Cupim de Boi, o Marins e o Itaguaré.

Mais quarenta minutos de caminhada chego à portaria superior do Itatiaia, entrada do famoso planalto de Itatiaia. Esta parte abriga uns dos recantos de montanha mais belos de todo o país. Aqui está o Pico das Agulhas Negras, um fantástico gigante de pedra com seu cume a 2791 metros de altitude. Para a segunda parte da minha travessia tive que conseguir uma autorização especial da administração do parque. A trilha que pretendo seguir está interditada ao público a vários anos. Tive que assinar um monte de documentos me responsabilizando por minha segurança. Claro que inventaram um monte de empecilho para que eu não seguisse na trilha sem guia, mas me mantive firme na minha convicção de seguir enfrente sem ter que me pendurar a pessoas que talvez tivessem muito menos experiência que eu, e não teve jeito, tiveram que me liberar. Paguei as devidas taxas e segui em frente,com passos firmes e decididos rumo ao meu objetivo.

Já estive aqui a uns 10 anos atrás, onde consegui escalar o Agulhas Negras e visitar a nascente do rio Aiuruoca. Sigo caminhando e me encantando com estas montanhas com vários afloramentos rochosos. Vejo do meu lado direito surgir o Pico do Couto com mais de 2600 metros de altitude. A estradinha continua em nível e em menos de meia hora de caminhada aparece no horizonte, ainda meio escondido o Agulhas Negras. Paro para descansar um pouco, beber água e apreciar a vegetação de altitude. Que lugar lindo! Espero em breve retornar aqui com minha filha. Tenho vontade de ficar aqui por muito mais tempo apreciando esta paisagem, mas o tempo passa e tenho que alcançar o abrigo Macieiras antes do anoitecer. Quarenta minutos é o tempo que levo para chegar até o abrigo Rebouças, uma construção de pedra aos pés do Agulhas Negras. Desvio do meu caminho e subo uma montanha 100 meros acima da estradinha. Aqui posso apreciar em todo o esplendor do Agulhas. Que montanha fascinante! Hipnotiza a gente e faz nos sentir pequenos diante de tanta beleza. Tiro várias fotos e retorno para estradinha.


Não demora muito e a estradinha vira uma trilha que vai descendo acompanhando o Rio Campo Belo. Passo pela cachoeira das Flores e sigo descendo até a bifurcação para o Pico das Prateleiras. Gostaria muito de ir as Prateleiras, mas o tempo é curto e decido seguir enfrente. Daqui para frente entro no caminho proibido para os turistas. Por um dia e meio estarei sozinho, entregue a minha própria competência pois se algo acontecer será não contarei com ninguém.

No início a trilha é confusa, corre por dentro das canaletas de pedra, fico sem saber se é trilha ou rio. Tenho que usar a minha experiência de trilheiro para localizar o caminho. Sigo descendo até o vale entre estas duas gigantescas montanhas, quando de repente o caminho acaba em uma pedra. No mapa topográfico que peguei na portaria do parque aparece um pedaço desta trilha e ele indicava uma curva a direita, foi o que fiz, mas não encontrei trilha alguma. Caminhei em um charco com água e lama por quase meia hora e nada de encontrar a tal trilha. Voltei de novo ao local onde a trilha sumiu, sentei-me em uma grande pedra, tomei fôlego, comi algo e voltei a procurar. O caminho que deveria ser obviou era apenas um pequeno rio. Coloquei de novo minha mochila nas costas e encarei a água gelada e depois de 20 metros com a água pela cintura, localizei de novo minha trilha, que alivio!


Meu próximo objetivo é encontrar o antigo abrigo Massena, desço até um vale onde sou obrigado de novo a enfiar o pé na lama, avisto do outro lado a continuação desta trilha, aperto o passo até chegar a uma bifurcação e para onde ir? Desconfio que a trilha que vem da direita seja uma trilha que á muitos anos atrás tentei alcançar, partindo de Engenheiro Passos que tive que desistir por causa do mau tempo. Decido tomar a esquerda e depois de atravessar por uma floresta de arbustos dou de cara com o Abrigo Massena.

Fico espantado com o tamanho desta construção. Toda feita de pedra, dizem que foi construída a uns 40 anos atrás para ser uma pousada. Aqui existia uma estrada, mas a floresta tomou de volta. A construção está em ruínas, o teto está quase todo no chão. Só sobrou praticamente a sala da lareira, onde outrora montanhistas usavam o local para esticar seus sacos de dormir, minha vontade é de fazer o mesmo mas resolvo alcançar o Abrigo Macieiras antes do anoitecer.

Procuro feito louco a continuação da trilha, mas não encontro pois daqui sai trilhas para todos os lados, mas nenhuma parece levar a lugar algum. Distancio-me uns 200 metros do abrigo e faço um circulo até interceptar o caminho que seguia na direção norte, totalmente do lado oposto de onde pensei que a encontraria, praticamente voltando.


O dia praticamente já está no fim, por isso resolvo apertar o passo. A trilha fez uma curva para direita e segue firme no rumo leste, sempre descendo. Por algumas vezes fazia alguns desvios em locais onde gigantescos desmoronamentos a engolia, o local é realmente perigoso e por um triz não caio em um destes grandes buracos. Estou realmente exausto, preciso chegar logo para poder comer alguma coisa quente e descansar. Cruzo vários capões de mata e muitos riachos, do meu lado esquerdo vejo um vale gigantesco que provavelmente o acompanharei até o final da viagem e finalmente às 17h avisto o telhado do Abrigo Macieiras. Fico muito feliz e eufórico e ando os últimos metros até tropeçar na porta do meu “hotel” de selva, largo minha mochila e desabo de cansado.


O abrigo Macieiras, a exemplo do abrigo Massena, não passa de uma tapera, parte do assoalho afundou e existem infiltrações por todos os lados, não há mais água nas torneiras e por isso sou obrigado a procura-la trinta metros a baixo junto a um riacho. O lugar é realmente macabro, lembra as casas de filmes de terror e poderia servir muito bem de morada para espíritos malíguinos, demônios, assombrações, exus alados, seres extra-terrestre e aventureiros céticos, como eu.

Por ser minha última noite na travessia, resolvo fazer um banquete e enquanto meu fogareiro faz sua parte, aproveito para dar uma organizada na casa. Encontro um velho cobertor pendurado na parede e uso-o para forrar minha cama, estendo meu saco de dormir e acendo uma vela. Fico sentado na varanda olhando para floresta escura e pensando nos perigos imaginários ou reais em estar nessa trilha sozinho o que requer muito cuidado e uma dose de experiência do que se está fazendo. Sei que ainda tenho muito a aprender, mas depois de quase vinte anos perambulando por quase todo tipo de lugar, consegui adquirir um conhecimento que me faz caminhar por lugares ermos.


Janto a luz de velas e vou dormir, porém de madrugada ouço um barulho de alguma coisa andando no assoalho da casa. Coberto dos pés a cabeça por causa do frio, percebo que o invasor começa a se aproximar do meu quarto, tento me levantar para ver do que se trata mas como está muito escuro não consigo ver nada mas a coisa, seja lá o que for, voltou para a floresta, deveria ser algum animal porém espero não ter sido uma onça atraída pelo cheiro da minha comida, prefiro acreditar que tenha sido qualquer outra coisa mas infelizmente nunca saberei o que realmente estava por aqui.

O dia amanhece lindo, como alguma coisa e volto para a trilha. O orvalho da manhã me deixa todo molhado, como é prazeroso caminhar por esta floresta preservada são centenas de flores diferentes, algumas só existem nesta região e insetos de incontáveis números. No meio da trilha encontro um lagarto tomando seu banho de sol matinal.


O caminho segue sempre para baixo e vai ficando cada vez mais fechado sendo obrigado a abrir o mato no peito deve fazer muito tempo que ninguém passa por aqui. Em alguns momentos a trilha simplesmente desaparece pois a floresta tomou de volta o espaço que sempre lhe pertenceu. Árvores, bambus, cipós, tombarão sobre a trilha e com isso fui obrigado a me rastejar e me livrar de incontáveis espinhos em alguns locais.


Depois de quase quatro horas finalmente consegui emergir desta floresta e alcanço a estradinha de terra que me levará a sede do Parque Nacional e mais quarenta minutos chego ao primeiro posto de controle, que fica junto do poço do maromba. Ao se aproximar de mim o guarda parque pediu para ver minha autorização, ele me perguntou quem era o meu guia e se ele ainda estava para trás. Foi muito engraçado ver a cara que ele fez quando disse que não havia guia algum e que eu estava sozinho e com isso ele entrou em contato com todos os postos de fiscalização em que passei.

Sai da trilha todo sujo, com a roupa rasgada, todo arranhado. Resolvo descer a trilha até o poço do maromba, é inacreditável a beleza deste lugar, a cachoeira não é muito alta mas na sua base forma-se um poço extremamente verde e profundo, um prêmio para coroar esta linda travessia. A água estava gelada, mas seria um pecado ir embora sem dar um mergulho. Tiro a roupa e nem penso muito, subo em uma grande pedra e me atiro de ponta. É um prazer que não da para descrever, lavei a alma, saio da água renovado e pronto para seguir enfrente já que ainda tenho umas três ou quatro horas de caminhada até o final.


Atravesso a ponte sobre o rio e vou conhecer a cachoeira véu de noivas, a mais alta da parte baixa do parque, uma bela queda de uns cinquenta metros. Volto para estrada e em duas horas passo pela sede do Parque Nacional de Itatiaia que hoje por ser segunda-feira está fechado. Na portaria, depois do centro de visitantes, consigo uma carona até a rodoviária de Itatiaia pequena cidade as margens da Via Dutra.

Compro a passagem de volta para casa e resolvo comer alguma coisa enquanto não chega o ônibus. Subo em uma passarela sobre a Via Dutra e de lá consigo avistar toda extensão da serra e do parque por onde caminhei durante todos estes dias. Avisto o cume do Pico das Agulhas Negras e sinto-me imensamente feliz de poder ter tido a oportunidade de trilhar estas trilhas que não recebe muito a presença de outros aventureiros. Durante três dias estive praticamente sozinho, mas nunca me senti só. Maravilhei-me com a beleza deste lugar, cruzei por montanhas imensas e florestas espetaculares, atravessei rios de águas cristalinas e acampei em lugares mágicos. Perigos, sei que corri e muitos mas viver já um perigo, alias como diz a letra da música que projetou o grupo de rock inglês Queem para o mundo, keep yoursel aline, que em bom português quer dizer “mantenha-se vivo” e foi o que fiz durante todos estes dias, manter me vivo, sentir o cheiro da natureza, ouvir o barulho das águas correndo sobre as pedras, ver o por do sol, redescobrir para que foram feitas as pernas, tocar a terra, deitar na grama, nadar no rio, subir nas árvores para, comer frutas silvestres, atolar o pé na lama, cheirar as flores do campo, me pendurar nas pedras, contemplar o céu estrelado, beber a mais pura das águas, me encantar com os pássaros e os animais da floresta, escalar montanha.


Despeço-me deste lugar com a promessa de voltar um dia, mas desta vez junto com minha filha, guiando ela na esperança que ela também aprenda a se MANTER-SE VIVA.

DIVANEI

dezembro de 2008

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